16.7.05

Oh baby don’t it feel like heaven right now
Don’t it feel like somethin’ from a dream
Yeah I’ve never known nothing quite like this
Don’t it feel like tonight might never be again
We know better than to try and pretend
Baby no one could have ever told me ’bout this

The waiting is the hardest part
Every day you see one more card
You take it on faith, you take it to the heart
The waiting is the hardest part

Well yeah I might have chased a couple of women around
All it ever got me was down
Then there were those that made me feel good
But never as good as I feel right now
Baby you’re the only one that’s ever known how
To make me wanna live like I wanna live now

The waiting is the hardest part
Every day you see one more card
You take it on faith, you take it to the heart
The waiting is the hardest part
Don’t let it kill you baby, don’t let it get to you
Don’t let ’em kill you baby, don’t let ’em get to you
I’ll be your breathin’ heart, I’ll be your cryin’ fool
Don’t let this go to far, don’t let it get to you

"The Waiting" - Tom Petty

20.3.05

Farmácia reaberta

“If my words did glow with the gold of sunshine/ And my tunes were played on the harp unstrung,/ Would you hear my voice come thru the music,/ Would you hold it near as it were your own?/ There is a road, no simple highway,/ Between the dawn and the dark of night,/ And if you go no one may follow,/ That path is for your steps alone./ You who would lead, must follow / But if you fall you fall alone,/ If you should stand then who's to guide you?/ If I knew the way I would take you home.” (Grateful Dead)

28.12.04

Para tocar no meu enterro


Hallelujah (Jeff Buckley)


Well I heard there was a secret chord
that David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do ya?
Well it goes like this :
The fourth, the fifth, the minor fall and the major lift
The baffled king composing Hallelujah

Hallelujah Hallelujah Hallelujah Hallelujah...

Well your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew ya
And she tied you to her kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah

Hallelujah Hallelujah Hallelujah Hallelujah...

(Yeah but) Baby I've been here before
I've seen this room and I've walked this floor, (You know)
I used to live alone before I knew ya
And I've seen your flag on the marble arch
and love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah

Hallelujah Hallelujah Hallelujah Hallelujah...

Well there was a time when you let me know
What's really going on below
But now you never show that to me do ya
But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah

Hallelujah Hallelujah Hallelujah

Hallelujah...

[Instrumental]

Maybe there's a God above
But all I've ever learned from love
Was how to shoot somebody who outdrew ya
It's not a cry that you hear at night
It's not somebody who's seen the light
It's a cold and it's a broken Hallelujah

Hallelujah Hallelujah...

6.12.04

Sleep will not come to this tired body now


Uma vez ele falou que nós só continuamos a nos entorpecer porque ainda não há razões suficientemente claras para não o fazer. Foi pensando nisso que coloquei aquela escada encostada ao lado do prédio mais alto. Só lá de cima eu poderia olhar pra baixo e pensar por que estamos presos a sentimentos que sabemos que não vão se completar - o que explica o pensamento inicial. E aqui em cima, você está seguro e confortável, longe das aflições e sentimentos humanos.

- Mas aqui em cima você está sozinho – falou a voz de um velho, através de uma janela.

- Mas é que às vezes você encontra alguém e sabe logo que ela vai ser a mãe dos seus... desejos. – outra voz. Pela janela, vi que foi a puta que disse, sorrindo, por cima daquele ombro peludo.

- E quando a distância momentânea te causa aquela angústia cancerígena? – um médico, girando na cadeira como se brincasse.

- O que você vem fazendo já foi dito. Saiba que o desejo exprime-se por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem - sussurrou um jovem filósofo, que continuou: e porque Sartre sabia, emboscaram ele, e fizeram com que tudo parecesse um acidente de carro, disse afirmativo.

- Por que você não tenta medir a distância do sol, pra ter uma resposta? – perguntou uma menina, na janela seguinte. Ela tinha apenas uns 12 anos e escondia o corpo, com uma toalha.

Já não conseguia ver o chão. De um andar inteiro, ouvia o som abafado de “In the Arms of Sleep”*. Fiquei tonto, abri uma janela, pensei em pular para dentro do prédio antes que caísse, quando a puta, o cara peludo, o médico, o filósofo, Sartre e a menina gritaram juntos naquele cômodo, na minha frente, para descer ou, senão, ficaria preso lá com eles.

E pra baixo era tanta gente andando em turbilhão. Cada um deles iguais que só teriam reconhecida a existência na página de polícia de um matutino. Enquanto isso andavam até anoitecer e, quando - como baratas no dia - recolhiam-se. Ela não. Descalça, no meio no meio da rua suja entre vômitos e cacos de vidro deixados pelos macacos do dia, ela me olhava. Sabia que olhava porque não via mais a cor dos cabelos agora empurrados pra baixo com o movimento da cabeça. E mesmo de tão longe, percebi que me olhava como a olhei da primeira vez. Só era preciso fitar seu rosto fixamente por alguns segundos pro seu olho escorregar em direção ao cigarro e tragar constrangida, trazendo a fumaça como um cobertor pra cobrir teu corpo que agora eu vi, sem hostilidade. E eu me senti um idiota. Ao só perceber daqui de cima que ser olhado assim me faz optar por me prender a um sentimento que sei que não vai se completar. E que venha alguém me apresentar uma razão clara para eu não descer tudo de novo e falar pra ela... Não precisaria de nada disso, se o escritor parasse na quinta linha e se prendesse à lógica.

"In The Arms Of Sleep" - The Smashing Pumpkins

Sleep will not come to this tired body now
Peace will not come to this lonely heart
There are some things I'll live without
But I want you to know that I need you right now
I need you tonite
I steal a kiss from her sleeping shadow moves
Cause I'll always miss her wherever she goes
And I'll always need her more than she could ever need me
I need someone to ease my mind
But sometimes a someone is so hard to find
And I'll do anything to keep her here tonite
And I'll say anything to make her feel alright
And I'll be anything to keep her here tonite
Cause I want you to stay, with me
I need you tonite
She comes to me like an angel out of time
As I play the part of a saint on my knees
There are some things I'll live without
But I want you to know that I need you right now
Suffer my desire
Suffer my desire
Suffer my desire for you

30.10.04

(sem título)

when God created love he didn't help most
when God created dogs He didn't help dogs
when God created plants that was average
when God created hate we had a standard utility
when God created me He created me
when God created the monkey He was asleep
when He created the giraffe He was drunk
when He created narcotics He was high
and when He created suicide He was low

when He created you lying in bed
He knew what He was doing
He was drunk and He was high
and He created the mountains and the sea and fire at the same time

He made some mistakes
but when He created you lying in bed
He came all over His Blessed Universe.

(charles bukowski)

18.10.04

Esta publicação é obra de ficção e nenhum personagem pretende reproduzir pessoas ou combinações de pessoas vivas ou mortas

Ao longo dos meses
Eu inventei tantos motivos
para gostar dela
Que agora
Não sei como faço
para me convencer do contrário

"You have to be prepared for the possibility that God does not like you" (Tyler Durden)

25.8.04

da série: "eu devia ter escrito isso"

A COMPANHEIRA
Luiz Tatit

Eu ia saindo
Ela estava ali
No portão da frente
Ia até o bar
Ela quis ir junto
Tudo bem, eu disse
Ela ficou supercontente
Falava bastante
O que não faltava era assunto
Sempre ao meu lado
Não se afastava um segundo
Uma companheira
Que ia fundo
Onde eu ia
Ela ia
Onde eu olhava
Ela estava
Quando eu ria
Ela ria
Não falhava

No dia seguinte
Ela estava ali
No portão da frente
Ia trabalhar
Ela quis ir junto
Avisei que lá
O pessoal era muito exigente
Ela nem se abalou
"O que eu não souber
eu pergunto"
E lançou na hora
Mais um argumento profundo
Iria comigo até o fim do mundo
Me esperava
No portão
Me encontrava
Dava a mão
Me chateava
Sim ou não?
Não.

De repente a vida ganhou sentido
Companheira assim nunca tinha tido
O que pinta sempre é uma coisa estranha
É companheira que não acompanha
Isso pra mim é felicidade
Achar alguém assim na cidade
Como uma letra para a melodia
Fica do lado faz companhia
Pensava nisso

Quando ela ali
No portão da frente
Me viu pensando
Quis pensar junto
Pensar é um ato tão
Particular do indivíduo
E ela, na hora:
"Particular, é? duvido.
E como de fato
Eu não tinha lá muita certeza
Entrei na dela
Senti firmeza
Eu pensava
Até um ponto
Ela entrava
Sem confronto
Eu fazia
O contraponto
E pronto.

Pensar assim virou uma arte
Uma canção feita em parceria
Primeira parte segunda parte
Volta o refrão e acabou a teoria
Pensamos muito por toda a tarde
Eu começava ela prosseguia
Chegamos mesmo modéstia à parte
A uma pequena filosofia

Foi nessa noite
Que bem ali
No portão da frente
Eu fiquei triste
Ela ficou junto
E a melancolia foi
Tomando conta da gente
Desintegrados
Éramos nada em conjunto
Quem nos olhava só via
Dois vagabundos
Andando assim meio
Moribundos
Eu tombava
Numa esquina
Ela caía
Por cima
Um coitado
E uma dama
Dois na lama

Mas durou pouco
Foi só uma noite
E felizmente
Eu sarei logo
Ela sarou junto
E a euforia
Bateu em cheio na gente
Sentíamos ter toda
A felicidade do mundo
Olhava a cidade
E achava a coisa mais linda
E ela achava
Mais linda ainda
Eu fazia uma poesia
Ela lia e declamava
Qualquer coisa que eu escrevia
Ela amava
Isso também durou só um dia
Chegou a noite acabou a alegria
Voltou a fria realidade
Aquela coisa bem na metade
Nunca a metade foi tão inteira
Uma medida que se supera
Metade ela era a companheira
Outra metade era eu que era

Capítulo um, versículo um

Pára aqui na minha frente
Pros meus olhos te baixarem um decreto
Antes que meu silêncio separe a gente
Você deve saber a resposta do por que eu só pensar em você através de uma janela
Isso é chegada ou despedida?
Eu não entendo porque você franziu a testa e me pede uma razão
Eu não tenho, e do que serve uma explicação, afinal?

Ontem fui no teu cardiologista, ao invés da imobiliária
Arranjei um lugar pra gente morar sem aluguel ou janela
Entrei na igreja interrompendo a missa
de ajoelhados, todos levantaram pra me ver roubar o altar
que coloquei no porta-malas do nosso carro azul
em cima dele vou ser o primeiro a te ver chegar de moletom branco
até moldei um anel com massa de modelar pra mostrar que eu falo sério

Também comprei cercas brancas para a casa, mas só tinham seis
Achei de bom tamanho pra envolver a gente do resto do mundo
No caminho peguei um vira-lata chorando ao encarar uma vitrine de vídeo-locadora
Ele podia ser nosso cachorro
Engraçado como não convidamos nossos amigos, mas eles souberam
E trouxeram uma banda cigana em suas costas
Eu estava parado com as malas na rodoviária ainda vazia
Esperando você chegar pisando no chão da vaga de um ônibus qualquer
e me dar um beijo pra eu saber que passagem comprar
do lugar até onde esse beijo me levar
Porque você me faz viver com a expectativa de partir?

14.7.04

Não ficção


Conto de verão nº 2: Bandeira Branca

Luís Fernando Verissimo


Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes,
não podia dar certo. Mas tinham só quatro anos e se entenderam. No
mundo dos quatro anos todos se entendem, de um jeito ou de outro.
Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a
todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão,
fazendo um montinho de confete, serpentina e poeira, até serem
arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem levados a outro
baile de Carnaval.

Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte.
Ele com o mesmo tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de
egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas dessa vez as mães
reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no
cordão, sob ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de
mãos dadas.

Só no terceiro Carnaval se falaram.

- Como é teu nome?

- Janice. E o teu?

- Píndaro.

- O quê?!

- Píndaro.

- Que nome!

Ele de legionário romano, ela de índia americana.

Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só
se encontrarem no Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no
resto do ano. Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no
Carnaval, a tia é que era sócia.

- Ah.

Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher
a boca das meninas de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a
mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado na gola alta do
vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do
Bandeira Branca, ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram
para o meio do salão, abraçados. E, quando se despediram, ela o
beijou na face, disse "Até o Carnaval que vem" e saiu correndo.

No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez as
fantasias dos dois combinaram. Toureiro e bailarina espanhola.
Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam
olhando. Até na boca (2). Na hora da despedida, ele pediu:

- Me dá alguma coisa.

- O quê?

- Qualquer coisa.

- O leque.

O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no
salão.

***

No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo
à procura, um havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar
por ela. Não conhecia a tal tia. Passara um ano inteiro pensando
nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo,
antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não
apareceu. Marcelão, o mau elemento da sua turma, tinha levado gim
para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. Teve que ser
carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava
sendo lavado. O que acontecera?

- Você vomitou a alma - disse a mãe.

Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e
nunca a teria de volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro
dela.

Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube ? e lá
estava ela! Quinze anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia
indefinida.

- Sei lá. Bávara tropical ? disse ela, rindo.

Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais
alto. Contou que faltara no ano anterior porque a avó morrera, logo
no Carnaval.

- E aquela bailarina espanhola?

- Nem me fala. E o toureiro?

- Aposentado.

A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um
brasileiro. Ela estava com um grupo. Primos, amigos dos primos.
Todos vagamente bávaros. Quando ela o apresentou ao grupo, alguém
disse "Píndaro?!" e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava
rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o
Marcelão. O Marcelão anunciara que levaria várias garrafas presas
nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. O
Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado
pela alma. Quinze anos, pensou ele, e já estou perdendo todas as
ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo chegar aos 30,
pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna
adornada, bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela
passar abraçada com uma sucessão de primos e amigos de primos,
principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até
criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de
couro. Pensou em dizer alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer
foi "pelo menos o meu tirolês era autêntico" e desistiu. Mas,
quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu
para a saída, tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela
mão, virou-se e era ela. Era ela, meu Deus, puxando-o para o salão.
Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela dizendo
"não vale, você cresceu mais do que eu" e encostando a cabeça no
seu ombro. Ela encostando a cabeça no seu ombro.

***

Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por
acaso, num aeroporto. Ela desembarcando, a caminho do interior,
para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar os filhos no Rio.
Ela disse "quase não reconheci você sem fantasias". Ele custou a
reconhecê-la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos
de bailarina espanhola (3). A última coisa que ele lhe dissera fora
"preciso te dizer uma coisa", e ela dissera "no Carnaval que vem,
no Carnaval que vem" e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela
nunca mais aparecera. Explicou que o pai tinha sido transferido
para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e como ela não
tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e,
mesmo, não teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara?

- O que você ia me dizer, no outro Carnaval? ? perguntou ela.

- Esqueci ? mentiu ele.

Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os
filhos dele moram no Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram
em Curitiba, o marido também é do Banco do Brasil? E a todas essas
ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz
da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que
todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? (4) E
ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles?
Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que
ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu?